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Globalizadas, montadoras brasileiras adotam o alumínio e respondem aos padrões do mercado internacional
General Motors desenvolve normas globais para qualificação de fornecedores e de especificação de materiais para aplicação de chapas de alumínio em veículos. Mas mercado interno ainda oferece restrições
 

A indústria automotiva brasileira ainda não responde oficialmente a metas rígidas de diminuição do peso dos veículos, como acontece em países da Europa, por exemplo, onde a necessidade de redução de emissões de gases poluentes se reverteu em regulamentações governamentais rigorosas. Entretanto, dado que se trata de um setor altamente industrializado e que opera de forma global e padronizada, as montadoras em atividade no Brasil também estão sendo requisitadas a adotarem processos que atendam às exigências internacionais, optando por materiais mais leves, econômicos e menos poluentes, como o alumínio.

É o que tem acontecido com a General Motors, maior fabricante mundial de veículos, cuja divisão do centro de tecnologia da filial brasileira é responsável por todo o desenvolvimento de engenharia da América Latina, África e Oriente Médio. Motivada por metas anuais de redução de peso dos veículos, a empresa está participando do desenvolvimento de uma norma global de especificação de chapas de alumínio para aplicações na carroceria.

“Com o alumínio, conseguimos reduzir o peso dos painéis em 40% a 50%. São percentuais representativos como esse, além das vantagens como alta resistência à corrosão, boa formabilidade e condutibilidade térmica, que têm motivado a maior aplicação do alumínio”, diz Ivan Umesaki, integrante do grupo global de especificação de alumínio da GM. Segundo ele, como não há uma norma específica para aplicação automotiva, a GM tomou a iniciativa de criar uma certificação própria para que, em qualquer região e pautada pelos mesmos critérios, a empresa trabalhe com os mesmos materiais e ofereça veículos com igual padrão de qualidade.

Intitulada de GMW 15192 - Aluminum Sheet for Body and Closure Panel Applications, a norma ainda está em desenvolvimento e deverá ser aplicada para especificação de ligas das séries 5000 e 6000. Atualmente, um grupo de especialistas estuda os requisitos que deverão reger a escolha dos materiais, que, segundo Umesaki, deverão ser usados na fabricação de capôs, tampas traseiras, portas, teto e reforços dos veículos da montadora a partir de 2010.

Assim, com os critérios definidos, cada componente automotivo será especificado na norma GM, com parâmetros mínimos de qualidade e desempenho, e deverá responder a diferentes demandas. “No caso dos painéis internos [de capôs ou tampas traseiras], a decisão vai variar de acordo com a formabilidade [da chapa de alumínio]. Já os painéis externos, dependendo da resistência à endentação”, diz Umesaki.

De acordo com ele, a empresa deverá examinar a composição química e as propriedades mecânicas das ligas de alumínio, além de estabelecer testes para avaliar as características de atrito, flangeamento (hemming), adesividade (usando diferentes tipos de adesivos e em diferentes substratos) e união mecânica por pressão (clinching) das chapas de alumínio.

A qualidade do acabamento superficial, fundamental em aplicações externas da carroceria, também será avaliada para evitar o aparecimento de defeitos, como ropping que comumente aparecem em ligas da série 6000, endurecíveis por envelhecimento em estufa.

Mas não são apenas os materiais que serão normatizados. A GM também está implementando a GMW 15420 - Global Qualification Process For Aluminum Sheet, processo de qualificação de fornecedores que define requisitos a serem atendidos por produtores e processadores de alumínio interessados em fornecer o metal para a General Motors em nível global.

A qualificação se dará em três etapas: na primeira fase, será avaliado se o fornecedor atende às demandas da engenharia e os requisitos básicos da manufatura global da GM. Na segunda, será preciso garantir que a empresa está apta a fornecer, regionalmente, ligas da série 5000 e 6000, envolvendo testes na planta. Na última etapa, o fornecedor deverá atender a todas as filiais da GM, espalhadas pelo mundo, comprovando sua capacidade de operar em nível global.

Desafios para a ampliação

Todo esse processo de qualificação de materiais e de fornecedores realizado pela General Motors evidencia a crescente participação do alumínio na indústria automotiva e a relevância do metal frente ao desafios atuais que se apresentam às montadoras. Porém, embora seja consenso entre os executivos do setor que a intensa aplicação do alumínio é uma tendência mundial, algumas características do mercado brasileiro restringem o crescimento da participação do metal na mesma proporção dos países desenvolvidos.

Para Edison Marcelo Serbino, da Volkswagen do Brasil, um dos motivos para haver maior quantidade de alumínio embarcada em veículos americanos é que, por lá, eles fabricam em média veículos maiores, com outro grau de conforto e, a princípio, mais pesados. Assim, o consumo de alumínio também é superior. Já no Brasil, “especialista em carros populares”, como diz o engenheiro, a conta do volume de alumínio embarcado não parece tão relevante.

O perfil do consumidor brasileiro também traz desafios. Segundo Serbino, convencer um frotista a usar um produto de alumínio, como uma roda forjada, por exemplo, não é tarefa difícil, tendo em vista que esse cliente sabe que apesar do custo inicial ser maior, o investimento é amortizado em pouco tempo. O alumínio também não sofre restrições entre os consumidores de carros de luxo e esportivos, dado que o custo da aplicação do metal, nesses casos, ou se dilui no preço do automóvel ou é visto como uma necessidade técnica, já que, tornando o veículo mais leve, é possível obter acelerações mais rápidas e frenagens mais curtas, melhorando a performance.

O desafio são os consumidores dos carros populares, que Serbino chama de “consumidor imediatista”. Esses, segundo o engenheiro da Volks, como não têm capital inicial, são mais avessos a qualquer aumento de custo. “Convencer uma pessoa simples a pagar mil reais a mais em um carro para ter um pouco mais de alumínio embarcado e, com isso, ganhar na economia de combustível, não é tão simples como convencer um frotista”, diz.

Outro fator restritivo é, na opinião de Serbino, a falta de rigor da legislação governamental do País. “A legislação ambiental no Brasil é muito menos rigorosa do que nos países europeus e, por isso, não se fomenta, tão fortemente, a redução do peso dos veículos”, diz. Lá fora, as montadoras são fortemente pressionadas com relação à economia de combustível, emissão de poluentes e segurança veicular, e o alumínio não apresenta nenhuma restrição para atender essas questões, muito pelo contrário.

Serbino comenta que “uma estrutura em alumínio pode reduzir em 50% o peso da carroceria de um veículo, e cada 10% de redução em massa significa uma economia de 5% no consumo de combustível, de forma direta, e pode chegar até 10% de economia, de forma indireta”. Diminuindo o consumo, reduzem-se as emissões poluentes. Sem falar que o uso do alumínio em certas aplicações torna o veículo mais seguro – pois o metal absorve duas vezes mais a energia de impacto em caso de colisões, em comparação ao aço.

O engenheiro acredita que “o aumento da utilização do alumínio em carros projetados para o Brasil tende a se igualar aos mercados mais desenvolvidos, porém, depende de políticas governamentais e ambientais mais rigorosas, da melhoria socioeconômica do público não técnico e também, em alguns casos particulares, de avanços tecnológicos para que o metal possa competir com outros materiais”, conclui.
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